Botafogo


Ainda sob efeito da surpresa e violenta emoção proporcionadas pela vitória na final da Copa Libertadores contra os argentinos do River Plate, na “bacia das almas”, como se dizia antigamente, quando nós, abnegados torcedores rubro-negros, diante do televisor instalado num bar curitibano, já nos preparávamos para o inferno das gozações da torcida arco-íris porque faltava um minuto para o término da partida e a derrota era iminente, e sem voz, escrevo estas linhas. E sobre o Botafogo de Futebol e Regatas.

O clube da Estrela Solitária faz parte da minha vida desde, praticamente, o nascimento. Reza a lenda que, lá pelos três anos de idade, já torcedor do Flamengo, “virei a casaca” após sucumbir à pressão dos amiguinhos da creche “Coleguinha”, numa pérfida e odiosa campanha que me ameaçava “jogar para escanteio” nas brincadeiras e não ser mais convidado paras festinhas de aniversário. Ganhei uma camiseta alvinegra, orgulhosamente exibida no verão de 1982, em visita ao zoológico de Montevidéu. Pouco tempo depois, retomei as faculdades mentais e, portanto, a consciência clubística rubro-negra.

Sete anos se passaram. Era o dia 21 de junho de 1989, um domingo. Estávamos na casa de minha avó paterna, descansando depois de mais um almoço em família. Naquela tarde, Flamengo e Botafogo disputavam o segundo jogo das finais do campeonato carioca. No primeiro confronto, empate sem gols. O Botafogo amargava um jejum de vinte e um anos sem títulos oficiais, e enfrentava um Flamengo cujo elenco incluía, dentre outros menos cotados, Bebeto, Jorginho, Leonardo, Zinho, Aldair e o galinho de Quintino.

Aos doze minutos do segundo tempo, o horror. Triangulação alvinegra, Vítor toca para Luizinho que, por sua vez, lança Mazolinha, reserva que havia substituído Gustavo. Ele avança pelo lado esquerdo, entra na área e cruza a bola na segunda trave do bom goleiro Zé Carlos. O oportunista atacante Maurício aparece como um trem-bala por trás do zagueiro rubro-negro e estufa a rede adversária. Assistíamos ao jogo na extinta TV Manchete, narrado por Paulo Stein e comentado por Márcio Guedes. A narração está tatuada na minha mente:

“Olha o Mazolinha... Entrou na área... Cruzamento... Maurício... Gol do Botafogo! Maurício, camisa número 7!”

O troco veio em 1992, na final do Campeonato Brasileiro. No dia 19 de julho, também um domingo, num Maracanã abarrotado, com mais de cento e quarenta e cinco mil pessoas, o Flamengo, comandado pelo “vovô-garoto” Júnior, então com trinta e oito anos, triturou o Botafogo do marrento Renato Gaúcho por três a zero. No segundo jogo, que terminou empatado em dois a dois, Júnior fez um golaço de falta e saiu comemorando feito um garoto que havia acabado de ganhar uma bicicleta do Papai Noel. Lembro bem de ouvir uma parte desse segundo jogo pelo rádio do carro dos meus pais, quando seguíamos para outro compromisso familiar.

Em 1995, o Botafogo, sob a fanfarronice do Túlio Maravilha, foi campeão brasileiro ao derrotar o time do Santos em pleno estádio do Pacaembu. A importância desta conquista, para mim, pouco tem a ver com o aspecto futebolístico e a rivalidade provinciana e mais com as coisas do coração. Coincidentemente, naquele mesmo dia da conquista alvinegra, os Titãs deram um show na praia de Ipanema. Fui com alguns amigos e lá encontramos uma menina conhecida do bairro onde morávamos, cobiçada por todos nós. Naquele final de tarde início de noite, tirei a sorte grande, sob os olhares invejosos da rapaziada. Nem lembro o nome dela, mas isso pouco importa.

A sina de tropeçar na galera do chororô – pesquisem no Google sobre a final do campeonato carioca de 2008, por gentileza – bateu à minha porta em 2002 e se recusou a ir embora. Comecei a namorar uma moça botafoguense, com quem fui morar em 2005 e, juntos, tivemos um filho, hoje com quase onze anos. Ele também se diz alvinegro e eu, resignado, contento-me por sua saúde de ferro, que é o que importa no frigir dos ovos.

Como se vê, o clube de General Severiano me deu, ao longo dos anos, muitas alegrias. Adaptando o hino imortalizado por Lamartine Babo, diria sem pudor algum que “teria um desgosto profundo se faltasse o Botafogo no mundo”. E viva o Manequinho!



1982

2019


Comentários

Sandra Pinto disse…
Bela homenagem, Marcelo. Meu caminho foi inverso. Virei a casaca por elas.
Ah! vc nunca me falou dessa fase iluminada pela estrela solitaria, Marcelo!
Hehe. Bonito texto, vqleu...
Ah, sim: apesar de tudo meus parabéns pelos titulos, aquela final foi um grande jogo a ser lembrado, fico feliz pela felicidade que trouxe a grande parte do povo carioca no meio de tanta escuridão.
Abraço alvinegro
Marcia Furriel disse…
Também estive nesse show da Praia de Ipanema...acho que inclusive acompanhada de sua cônjuge botafoguense :)