Muito barulho por nada

Sempre tivemos o hábito, eu e minha irmã, desde pequenos, de dormir na casa dos avós maternos. Levávamos, cada um, sua malinha com os personagens da Turma da Mônica, a minha azul, a dela laranja. Na minha lembrança, eram malas gigantescas usadas para viagens transatlânticas. Faz pouco tempo, meus pais descobriram-nas guardadas em algum canto da casa, onde recebem, como avós, os netos, meu filho e a filha de minha irmã. Emocionei-me imediatamente, transportado que fui a um tempo que já se esfumava na memória, a mala azul me levando, como um viajante, de volta à infância despreocupada. Ri também, porque de gigantesca não tem nada, mais parecendo uma maleta que se leva papelada de escritório. A cada fase da vida, os gigantes apropriados. Fato é que mantive o hábito de dormir na casa dos avós maternos por muitíssimos anos, já barbudo inclusive, cheguei a bater ponto uma vez por semana, geralmente às terças-feiras. Minha avó fazia uma sopa de cogumelos divina, e uma salada de tomates, pepinos, iogurte e ricota, popularmente conhecida por “miséria” (acho que em referência à penúria alimentar vivida pelos judeus do leste europeu) que, de miséria não tinha nada.

Meu avô, até sua morte, em 2000, depois de despedir-se com um beijo molhado nas minhas bochechas, ia deitar-se na cama à espera do sono. Neste meio tempo, lia e sintonizava, invariavelmente, a rádio MEC e sua programação dedicada à música clássica. Acho que minha iniciação a Bach, Beethoven, Mozart, Liszt e companhia limitada se deu pelas ondas do radinho de pilha do seu David. Minha avó, por sua vez, era frequentadora assídua dos concertos vespertinos sabáticos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Fui sua companhia por alguns anos, dois ou três. Comprávamos (ou melhor, ela comprava para ambos) ingressos para toda a temporada, com lugares cativos na plateia, de onde podíamos observar mais de perto a beleza dos instrumentos, os movimentos dos músicos e do regente da Orquestra Sinfônica Brasileira.

Divertíamo-nos tentando adivinhar se os gêmeos violoncelistas entrariam juntos ou não, comentávamos quando um deles não estava presente. Ficávamos esperando o silêncio quase que total do público (nunca é total...) para o início do concerto até que as primeiras tosses começassem e nos entreolhávamos como quem diz “estava demorando”. Tosses psicossomáticas só podiam ser porque não se ouvira um pigarro até aquele exato momento. Achávamos graça. Irritávamo-nos com quem insistia em fazer barulho durante a execução da obra, sempre tem alguém mexendo na bolsa, se mexendo na poltrona, abrindo um pacote de qualquer coisa, o celular que toca, comentários com o vizinho de poltrona em vez de absorver a beleza estética e sonora diante dos olhos. Para muitos, estar ali era uma simples questão de status, uma obrigação, antes que uma diversão. Sem falarmos nas palmas e aplausos fora de hora, no intervalo entre um movimento e outro o que, convenhamos, é questão de educação musical e, portanto, equívoco perfeitamente sanável. Nada tão grave que fizesse o maestro, como já vi fazer em outras ocasiões, parar a regência para passar um pito na plateia deselegante.

Em resumo: num concerto de música clássica, o silêncio é fundamental. Tanto para os músicos, que precisam de concentração para a boa execução dos movimentos, quanto para o público, que absorve melhor sons, muitas vezes, delicados.

A mesma regra do silêncio vale para os esportes? Quais esportes?

As Olimpíadas que acontecem no Rio de Janeiro expõem a falta de traquejo (vou dar um crédito...) do público local com o comportamento esperado durante a realização das provas de algumas modalidades. Espera-se, por exemplo, que, no momento imediatamente anterior à caída dos nadadores na piscina, se faça silêncio total para que não haja desconcentração dos atletas. Anos de treino não podem ser jogados fora por desrespeito, ainda que involuntário, às regras definidas, formalmente ou não, para aquele esporte específico. O mesmo silêncio é esperado nas quadras de tênis no momento do saque e durante a disputa do ponto, sendo bastante comum os árbitros de cadeira solicitarem ao público presente, que ainda comemora o ponto conquistado ou lamenta o ponto perdido, silêncio para que o tenista possa concentrar-se e sacar novamente. O mesmíssimo silêncio é esperado nas disputas de tênis de mesa, esgrima, salto sincronizado, judô e outras tantas modalidades.

O barulho da torcida brasileira em TODOS os esportes é visto como “excesso de alegria”, uma idiossincrasia jubuticabeira para uns, falta de respeito para outros. Correspondentes estrangeiros chegaram a comparar o comportamento dos brasileiros nas arquibancadas do Parque Olímpico com o que acontece no clássico entre Flamengo e Fluminense, ou seja, transplantou-se para os ginásios olímpicos o padrão de comportamento típico de um campo de futebol. Se quiserem silêncio, esbravejam os brasileiros ofendidos em sua alma festeira, vão assistir a uma ópera ou se divertir num campeonato de golfe.

Mas a questão é exatamente a reprodução de um comportamento típico dos campos de futebol porque, nos campos de futebol, o barulho vem acompanhado, ou melhor, é causado por vaias e xingamentos os mais diversos e imagináveis. Aliás, espera-se que nos campos de futebol extravasemos nossas alegrias e tristezas, nossas frustrações e outras doenças psicológicas em cima dos jogadores do outro time, dos jogadores do nosso time quando não conseguem vencer a partida e, obviamente, do juiz e sua mãe querida, sempre roubando a favor do adversário. Já dizia Nelson Rodrigues que, no Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio “e, se quiserem acreditar, vaia-se até mulher nua”.

Como as vaias e xingamentos não são um dado da natureza, um característica intrínseca ao povo brasileiro, de “sangue quente”, álibi perfeito para justificar toda e qualquer atitude anti-desportiva, bárbara, deselegante, deseducada, ignorante, provinciana, medieval, podemos e devemos criticá-los. Muitos tiveram o desprazer de testemunhar, durante as disputas do judô nestas olimpíadas tupiniquins, a torcida brasileira cantar o refrão “uh, vai morrer” aos adversários dos judocas locais. Fora o resto, impronunciável aqui. As reações são previsíveis: gestos obscenos dos adversários, de torcedores brasileiros e argentinos saindo no braço nas arquibancadas do tênis, do dedo indicador nos lábios pedindo silêncio depois da vitória contra o atleta local. Fair play tem limite.

É engraçado o infantil e patético “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. Orgulho de quê? De menosprezar e agredir, ainda que apenas verbalmente, os esportistas visitantes? Ódio, ressentimento, rancor sim, não amor. Nacionalismo mal ajambrado, nem mesmo os nacionalistas de chinelo nos dedos e caipirinha na mão sabem do que se orgulham. Vomitam seus ressentimentos nos desavisados. É sinal de baixo autoestima, de afirmação da identidade nacional construída a partir da aniquilação do outro, do seu menosprezo.

Certa está a nadadora Joana Maranhão: o Brasil (leia-se: os brasileiro) é racista e xenófobo.

Por fim: de que vale vaiar e xingar, esgoelar-se, para uma delegação que consegue um par de medalhas, vítima de um Estado que não consegue elaborar uma política de longa prazo para o esporte ? A vaia e o xingamento têm outro endereço...

Muito barulho por nada. 

Comentários

O cerne do problema se resume em apenas uma palavra: EDUCAÇÃO. E ponto final.
Salvo exceções, os brasileiros que cantam aquele refrão, “infantil e patético”, são os mesmos que vociferam escabrosas palavras, vaias e gritos de guerra comprovando que ainda têm muito para evoluir - e pouco amor para dar.
O homo sapiens, se visse e ouvisse, ficaria embasbacado.
Eu sou bandoleiro, com muito orgulho, com muito amor...