Dia desses, o jornal Folha de São Paulo publicou um
artigo intitulado “Como a evolução transformou os gatos em animais
solitários”. Ele começa perguntando ao leitor por que é tão difícil domá-los, por
que são tão autônomos e solitários, por que são tão relutantes em cooperar,
seja entre si ou com humanos, por que tantos outros animais –domésticos ou
selvagens– têm espírito de equipe. Afinal de contas, viver em grupo é comum na
natureza, ajuda na proteção contra predadores, facilita a caça e poupa energia.
A razão para esta vida solitária e autônoma, raiando as beiras do egoísmo, segundo
o biólogo John Fryxell, da Universidade de Guelph (Canadá) seria econômica
porque, para alguns animais, os benefícios da coletividade não compensam ter
que dividir comida: "Chega a um ponto em que se alimentar com outros
indivíduos com grande proximidade reduz a sua quantidade de alimento".
A lógica econômica estaria tão
integrada ao comportamento dos gatos que nem mesmo a domesticação teria sido
capaz de alterar essa preferência pela solidão, tanto mais se levarmos em
consideração o fato de que os humanos não domesticaram os gatos. Ficamos
sabendo, ao longo da matéria, que os gatos, descendentes dos gatos selvagens do
Oriente Médio (Felis silvestris), domesticaram a si mesmos. Os humanos
não os coagiram a deixar as florestas: eles mesmos se convidaram a entrar nos
alojamentos de humanos, onde havia uma quantidade ilimitada de ratos ao seu
dispor. A invasão a essa festa de ratos foi o início de uma relação simbiótica.
Os gatos adoraram a abundância de ratos nos alojamentos e depósitos e os
humanos gostaram do controle grátis da infestação de ratos.
Gatos seriam guiados por uma razão
prática, por um senso utilitário, interesseiro. Não totalmente antissociais,
sua sociabilidade – em relação aos humanos a outros pares felinos - seria
moldada nos seus próprios termos, subjugando a vontade do parceiro.
Aparentemente descobrindo a pólvora, um especialista em comportamento animal no
Instituto de Etologia Aplicada e Psicologia Animal em Horgen (Suíça), concluiu,
depois de muito dinheiro investido em pesquisas acadêmicas, que “eles (os gatos
domésticos) mantêm um nível alto de independência e se aproximam de nós apenas
quando querem". Eureca!
Para finalizar o rosário difamatório, a
matéria cita um estudo publicado em 2014 no periódico científico "Journal
of Comparative Psychology", que investigou os traços de personalidade dos
gatos domésticos e concluiu que manter-se solitário e desinteressado torna-os neuróticos,
impulsivos e resistentes a ordens. Eles simplesmente não acreditam na força de
um grupo e marcam seu território para evitar encontros constrangedores entre
si. “Se eles acidentalmente se toparem, os pelos são levantados e as garras saltam
para fora”.
Como servo de três gatos – o Arthur
Dapieve escreveu, numa matéria recente também, que cães tem dono, gatos têm staff
-, exemplos de liberdade em estado puro, senti-me profundamente ofendido pela
matéria, encharcada de arrogância humanista, de dor de cotovelo. Por quê?
Porque somos moldados por convenções
sociais, por regras de etiqueta que nos obrigam a conviver com pessoas cuja
mera presença nos dá engulhos. Porque não podemos exercer nossa sexualidade sem
o risco de linchamento. Porque as mulheres não podem decidir o destino de seu próprio
corpo. Porque teremos de trabalhar até os noventa anos para receber a
aposentadoria integral. Porque refugiados de guerras insanas, iniciadas em nome
da liberdade, morrem aos borbotões. Porque,
ao colocar as torcidas organizadas de Vasco e Flamengo numa mesma sala e veremos
que não só “os pelos são levantados e as garras saltam para fora”, mas paus,
pedras e armas de fogo também dão as caras. Porque nunca se consumiu tanto
antidepressivo e ansiolítico quanto nos dias que correm, no mundo todo. E
neuróticos e impulsivos são os pacíficos felinos que só querem comida no pote,
água na vasilha, caixa de areia limpa e cafuné na cabeça?
Se eu pudesse ler a mente do Leopoldo, nosso
caçula de três anos, por exemplo, tenho a certeza de que estará cantarolando os
Saltimbancos Trapalhões, entre uma lambida e outra, rindo da nossa miséria moral:
Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorita
Felino, não reconhecerás
Exemplo claro de senso oportunista: Leopoldo e Miguel
Link da matéria:
http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2017/05/1881956-como-a-evolucao-transformou-os-gatos-em-animais-solitarios.shtml
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