Há limites para o humor?

Anos atrás, assisti no cinema a Desconstruindo Harry, de Woody Allen, de quem sou fã incondicional. Dizem que pizza, até quando é ruim, é boa. A mesma lógica se aplica ao neurótico atormentado nova-iorquino do Brooklin, caso de Desconstruindo Harry, que não é uma obra prima, embora uma de suas cenas contenha, em minha opinião, um dos melhores (e são incontáveis) diálogos de toda sua filmografia.

Harry Block/Woody Allen, um escritor que usa suas experiências amorosas como inspiração para livros e contos, não agrada nem um pouco seus amigos e familiares. Sua irmã, Doris, e seu cunhado, Burt, criticam-no por sua falta de religiosidade e acusam-no mesmo de ser antissemita, pois retrata os judeus de forma negativa em seus livros. Eis o diálogo:

Doris: Ele não tem espírito. Só pensa em física e em xoxota. Desculpe a expressão. Se tiver câncer, irá direto à sinagoga de yarmulke (solidéu).
Harry: Câncer? Eu como brócolis.
Burt: Importa-se com o Holocausto ou acha que nunca aconteceu?
Harry: Não só sei que perdemos seis milhões... Mas o pior é que recordes existem para serem quebrados.

Lembro-me que, no exato instante em que o diálogo se encerra, duas senhorinhas sentadas à minha frente levantam-se e deixam a sala de cinema. Imagino que fossem judias, quem sabe sobreviventes do holocausto. Minha avó não gostava nem um pouco de Woody Allen, não via graça nas suas piadas, mas não acredito que fosse a favor de sua morte, apenas não ligava para seus filmes. O humor judaico é ferino, brinca com as desventuras do povo judeu ao longo de sua existência. Allen é um de seus representantes e, apesar de controvertido, amado e odiado, é legitimado internamente às fronteiras étnicas e externamente pela sociedade em geral porque é judeu, embora muitos o acusem de ser um self-hating jew (geralmente, os detratores são judeus). Sua condição judaica lhe permite brincar com temas tabus, como o holocausto, afinal, entende-se que o humor judaico é feito por judeus. O humor de dentro para fora é permitido, o humor de fora para dentro é antissemitismo...

A questão é: até onde é possível ir com o humor judaico? A partir de que momento é antissemitismo? Onde está a fronteira? Existe fronteira? Quem a define? Há uma régua moral ou não cabe o “mas” quando falamos de liberdade de expressão? O humor politicamente incorreto só pode ser dirigido aos “iguais”, evitando-se acusações de preconceito? O que é, afinal, o humor?

Isto tudo me veio à cabeça com as charges publicadas pelo semanário parisiense Charlie Hebdo após o terremoto que matou cerca de trezentas pessoas na região central da Itália no mês passado. Numa delas, intitulada “Terremoto à italiana”, as vítimas são comparadas a diferentes tipos de pratos típicos italianos: penne ao molho de tomate (sangue), penne gratinado (queimadura) e lasanha (pessoas mortas e ensanguentadas entre os pavimentos de um prédio desabado). Houve indignação nas redes sociais e, sobretudo, nas pequenas cidades destruídas pelo abalo sísmico.



Dias depois, um dos chargistas do Charlie Hebdo publicou outra charge, mostrando uma pessoa parcialmente soterrada pelos escombros que dizia “italianos... não foi o Charlie Hebdo que construiu suas casas, foi a máfia!”. O governo italiano investiga casos de negligência ou fraude em obras, sobretudo após moradores de casas destruídas denunciarem a utilização de materiais e técnicas inadequadas por construtoras em uma área de alta atividade sísmica, e as autoridades temem a infiltração da máfia italiana (vai saber se a Camorra ou a Cosanostra...) na reconstrução das edificações destruídas. De estilingue e vidraça, de vidraça a estilingue.

O chargista Laurent Sourisseau, um dos sobreviventes do ataque de extremistas islâmicos contra a sede da revista que, em janeiro de 2015, matou doze de seus companheiros por causa da publicação de caricaturas do profeta Maomé, declarou que “a morte é sempre um tabu, mas, às vezes, é preciso transgredi-la", acrescentando que, "para nós, é uma caricatura de humor negro como já fizemos antes, não tem nada de extraordinário".

O holocausto como tabu a ser transgredido. A morte como tabu a ser transgredido.

De bom gosto ou de mau gosto, é humor. Humor negro, que seja. Se não gosto, ignoro ou critico, desenho uma “contra-charge”; se gosto, aplaudo e rio à Monalisa. Pessoalmente, não sei dizer, ainda, se gostei ou não da charge, mas, de uma coisa eu tenho certeza: sou terminantemente contra a censura.


Censura, nunca mais. 

Links:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/09/diretor-da-charlie-hebdo-defende-charges-sobre-terremoto-na-italia.html

Comentários

Renata Sant Anna disse…
Censura nunca mais. A dificuldade está no limite do direito. Direito de ser a favor ou contra seja qual for o tema. Aquilo que tem alto valor pra uns pode doer mais que aquilo cujo valor é menor. Não há certo ou errado, há direitos e valores. Só espero que censura nunca mais!