Limites da amizade (parte 2)

Logo após o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, escrevi um texto neste blog provocado por uma mensagem recebida de um outrora amigo. Ele se referia, saudosamente, à ditadura militar.  Perguntei-me, então, se havia algum limite moral para a amizade. Muita água passou debaixo da ponte. Ele ajudou a eleger um fascista e deu a entender que só era torturado, se houve realmente tortura, aqueles que não andavam “na linha”. 

Desfiz a amizade, respondendo finalmente à pergunta lançada em 2016. Abaixo, reproduzo o texto. Quem quiser comentar sua experiência própria, fique à vontade.  

"Há algum limite moral a partir do qual a amizade se torna inviável?
Esta dúvida me atormenta há bastante tempo, desde a reeleição de Dilma Rousseff, quando muitos amigos, uns coxinhas, outros mortadelas, deixaram de sê-lo. Futebol, política e religião não se discutem, certo? Errado. Por que o medo do confronto de ideias? Democracia também não é isso?
Mas repito a pergunta acima, em outros termos: existe algum valor primordial, um hiperbem, que, uma vez violado, impede a continuidade da relação com o outro, a despeito dos muitos gostos em comum que podem compartilhar?
 Logo após a votação do impeachment de Dilma, recebi de um amigo, que fez questão de afirmar estar “só repassando”, a seguinte mensagem:
“Para quem não crê em justiça divina: hoje é dia 31 de agosto, data do assassinato do soldado Mário Kozel Filho. Ele estava como sentinela do Portão D’Armas, no QG do II (2º) Exército, em São Paulo, é Dilma, juntamente com seus cúmplices terroristas, cometeram um atentado, jogando um carro com explosivos contra o local que o Soldado fazia guarda, levando-o propositalmente a morte. Hoje, no mesmo dia, ela é vergonhosamente destituída do seu tão amado cargo!”

Este amigo, filho de militar, ele próprio tendo estudado em colégio militar, não usa a palavra “golpe” para definir o que aconteceu no dia 31 de março de 1964. Prefere “revolução” ou “intervenção”. O Brasil dos milicos era um Estado terrorista? Mas e Cuba? E Fidel? E Che Guevara? E Chávez? Os militares estavam salvando o Brasil dos comunistas terroristas ou dos terroristas comunistas, dois termos intercambiáveis, sinônimos, que caminham inexoravelmente juntos.
Não creio que meu amigo seja a favor da tortura, embora não reconheça que o Brasil, entre 1964 e 1985, se transformou num Estado terrorista. Talvez acredite que terrorismo se combate com terrorismo. O busílis (dicionário, dicionário) é que o combate ao “terrorismo” implicou na suspensão dos direitos políticos de TODA a sociedade brasileira, composta de gente “honesta”, “trabalhadora”, não somente de guerrilheiros a soldo da União Soviética, China, Albânia, Cuba...
Será que meu amigo conhece o AI-5? Será possível concordar com determinadas ideias de um político que, em seu discurso a favor do impeachment de Dilma, saudou um torturador confesso? Será possível, neste caso, separar o joio do trigo?
Talvez, para mim, este seja o meu hiperbem: a condenação de todo e qualquer regime de exceção, seja de direita ou de esquerda. Sem a possibilidade de “mas” ou “veja bem”.
Li, ontem, um pequeno texto de alguém que prefere romper relações com pessoas cujas ideias, crê, são irreconciliáveis. Segue um trecho:
"Não vale a pena perder amigos ou se afastar de familiares por causa de política". Desculpem-me pela frieza, mas vale a pena, sim. Mais do que isso: é fundamental perder amigos e se afastar de parentes. Se o "por causa de política" se refere ao fato de esses amigos ou parentes fazerem apologia (ainda que de forma velada) à desigualdade, ao racismo, à concentração de renda, ao sexismo, à xenofobia, à discriminação, à humilhação simbólica de classes desfavorecidas, à regressão do país à condição de colônia ou a estupidezes semelhantes (a lista é longa), faço questão absoluta de tomar providências para nunca mais ver pela frente esses "amigos" e para só encontrar esses parentes em inevitáveis eventos familiares (interagindo o mínimo possível)." 
Entraria no rol de “estupidezes semelhantes” a defesa do golpe de 1964?
Maldita consciência."



Comentários

Eva Bueno disse…
Interessante, um amigo me perguntou hoje o seguinte: "E' possivel manter um dialogo com bolsonaristas?" E respondi que, pelo exemplo dado na minha familia, definitivamente nao. O Bozo e o Trump sao como uma infeccao generalizada no corpo politico desses dois paises (nao falarei de outros que nao conheco bem), e essas pessoas, infelizmente alguns de dentro de nossas familias, sao pequenos tumores que explodem `a flor da pele da sociedade. Trump e Bozo, os dois, mudaram a quimica de muitas pessoas, e elevaram o teor racismo, homofobia, mulherfobia (mesmo mulheres estao sofrendo disso, porque nao enxergam nas "outras" seres iguais, que querem e merecem respeito), e uma falta de capacidade de ver nos outros as mesmas pessoas que eram antes dessa desgraca acometer os dois paises. Um de meus proprios irmaos se referiu a um grupo de intelectuais que comentavam o perigo que e' um homem como o Bozo (e o Trump) para as mulheres eles estarem nas posicoes de poder em que estao. Meu irmao disse o seguinte: "essas mulheres sao todas umas vagabundas, tranqueiras do PT, merecem mesmo e' apanhar." Eu sei o que ele quis dizer: merecem ser estupradas, como o Bozo sugeriu e o Trump se vangloriou. Eu recordei ao meu irmao que ele nao ia gostar de sua esposa, sua filha e suas noras serem chamadas de vagabundas e tranqueiras e merecedoras de estupro. Como ele se atreve a dizer isso de outras mulheres? Talvez meu irmao tenha sempre sido esta mesma pessoa. Mas a doenca estava sob controle, debaixo da capa de civilidade que a sociedade exige. Tanto o Bozo como o Trump tiraram estas capas. A infeccao e' geral. De repente a nossa geracao esta' perdida mesmo. Mas sempre havera' outra. Se o virus nao nos levar a todos, gracas `a anti-ciencia, `a burrice, `a falta de respeito pelos outros que grasna hoje em dia no Brasil e nos Estados Unidos.